sexta-feira, julho 08, 2011

Os Zumbis de Orzudfajie

Por Thiago Berzoini

E por falar em zumbis: percebi ao amanhecer que essa cidade é feita por eles, para eles. O povo adora um morto-vivo. E não adianta fugir. No ritmo de uma lentidão graciosa, eles te pegam. E aí não tem jeito: ou você vira um deles ou eles te descarnam.
E pode gritar porque a cidade é surda aos teus apelos, cega à tua beleza e muda aos teus ouvidos.
Eles vêm assim, caminham mancos, quase não aguentam ficar de pé.
O sangue que carregam é alheio, pois o de seu corpo secou há muito, se é que um dia houve algum.
Houve sim. Eram como eu, como você. Eram uma armada graciosa na luta contra outros seres assombrosos, mas foi há muito. Não lembro quais eram.
Mas hoje, encare bem eles e veja o vermelho que corre!
Da vida não lhes pertence mais, são rubro líquido viscoso daqueles outros jovens.
É fato, muitos nasceram cegos. Nem viram quem lhes aconchegava, quando percebiam já estavam sendo acolhidos pelos braços frios dos mortos!
Iludidos, nem corriam.
Alguns até corriam de encontro, felizes! Tornavam-se um deles sem sequer saber o que eram. Muitos jamais souberam.
Outros souberam. Enxergavam perfeitamente... outros não viam, mas o faro era apurado.
E o cheiro da podridão é inconfundível.
Mas se renderam.
Lutar é muito mais difícil... e sabem: a resistência é inútil.
E é doloroso... muito doloroso quando um amigo está entre eles.
Você sabe o valor que o outro tem, mas...e agora?
Agora ele é aquilo. Podre por dentro, podre por fora. Querendo teu sangue.
Os mortos-vivos estão ao seu redor, cerco feito! Porque afinal de contas andam em bando!
São lentos, e de tão vagarosos sozinhos são facilmente derrotados.
Por isso surgem em hordas.
E às seis da manhã de um dia frio, na varanda do quinto andar à espreita do por vir eu percebo a paz.
Durou poucos minutos apenas. Enquanto o vazio flertava com a esperança, mas sem conseguir trepar e dar a vida a um novo sabor.
Assim, a noite foi sumindo. Consumida por um céu violeta, nublado.
E pela rua, eles já vagavam.
A munição agora é escassa. Não dura muito...A resistência teve muitos, agora são tão poucos.
E já quase não tem fôlego... Mas lutam, como resistem!
E os zumbis fechando o cerco. Lá embaixo nas ruas frias.
Se me atacarem (vão atacar), que venham números incontáveis...
Que descarnem logo essa cabeça que te pensa, esse sorriso que te esfola.

terça-feira, janeiro 26, 2010

26-01-2010

A noite reinando
fria em silêncio.
O grito preso na garganta,
um olhar cansado,
sob as velhas-mesmas páginas
de um autor irlandês,
enquanto a meia luz da sala
embala,
a tosse seca
ecoando,
os cômodos
[vazios]
cheios de dor.

sexta-feira, agosto 29, 2008

In Technicolor

Por Thiago Berzoini

E que nenhum destino possível parece agora em technicolor com som estéreo; não há na grande sala escura um espectador aflito ansiando uma canção orquestral majestosa. Todos possíveis destinos parecem, agora, fantasmais. Pois nenhuma linha demonstra-se passível de desvio. Força vã: o fio do destino se mostra irretocável, irrevogável, inquestionável. Num dia de céu cinza e dublado, os olhos ainda meio grudados, o despertador com seu toque irritante. Corpo impulsionado a sair do conforto, cessar o barulho intermitente. É hora, então, de levantar. E no meio da tarde, já serás um eu de lembrança sofrida, doído - alma aos músculos -, palavras acústicas abafadas, um leve sabor de coentro. Dessa forma, alguns menos, outros mais, passam seus dias entre terras e um cais, num vaguear insosso, num alagar de olhos. O pior lugar é o não-aqui; de estar lá, só, em pensar: Não existir.

terça-feira, julho 29, 2008

O Sorriso de Nat King Cole na Avenida

Por Thiago Berzoini
Naquele ponto de ônibus, a noite vislumbrava, ainda, continuidade.
Alinhado, parou incomodado. Pessoas se esfregando, o esbarrão ocasional dos corpos se aproveitando da ocasião, o suor misturado com o perfume da sexualidade desglamourizada do fim de tarde, na parte baixa da cidade.
Ele, incomodado.
Gente feia. Perfume barato.
Olhar angustiado.
Sem porquê.
Duas pérolas de pureza, peles negras, arrancam breve sorriso do homem de olhar cansado.
Preocupado sorri pouco.
A vida anda promissoramente tacanha, móe a fé.
Aquelas crianças, de roupas puídas -ele com um casaquinho azul-pelúcia encardido, ela com duas chiquinhas mal feitas, cabelos crespados mal cuidados, jaqueta rosa rasgada na manga - ainda não viram o esmaecer do farol (mesmo que já apagado) - (des) saber triunfal da infância.
Em meio à tanto vazio, mesquinharia brinde do cotidiano, sorriam felizes,elas, entre si. Encostavam lábios pequenos e alegres em suas sujas palmas das mãos, respectivas, e sopravam olhando, admiradas, para cima: outdoor reinando sob suas alturas infímas.
Sorrisos breves. Gargalhadas embaladas pelo cheiro do churrasquinho da esquina.
Eram beijos enviados com um sopro leve, infante, para Nat King Cole. Ele, numa foto antiga e pouco tratada, gigantesco até para os crescidos.
Anúncio de um musical sobre sua vida, no teatro mais nobre da cidade - informação essa que aquelas crianças encantadas desconheciam.
Perguntava-se - observando a cena, quase chegou a marear os olhos secos - se Nat Kin Cole os lembrava o pai, tio ou avô. Certamente, não conheciam o músico, mas era de alguma forma, carismático o suficiente para merecer o curioso carinho despertado nos, deduzia ele, irmãos. Arrepiou-se ao ver a cena. Perdeu-se (quase) do incomodo da lotação (estúpida) do fim da tarde naquele ponto de ônibus.
No meio daqueles, era só um. Gostava disso, em parte, embora nunca admitisse.
Sua condução tardia estacionando (enfim).
Olhou Nat King Cole no seu outdoor: solitário, sorriso (triste) - (triste) talvez da felicidade do sucesso. Sabia que a "fama" era um gozo doído, cria, naquele sorriso Cole também sentia-se assim. Cismava com o sorriso de Cole. Sincero, ainda assim, forçado. Talvez o foco fossem os olhos mas poesia mesmo era sorriso, decidiu que era assim, e foi. Já vira a foto, no Outdoor percebia-se mais triste.
Antes de subir no ônibus, de chofre olhou pros pequeninos.
Sentados, a mãe até então figurante imperceptível na cena, agora abaixada abrindo um pacote de biscoitos recheados. Na mão da menina, meio biscoito com recheio ao ar livre.
Tumulto, roleta.
Bancos ocupados. Claustrofobia.
Silêncio.
Celular, - (distante) monofônico Mozart-, "Alô, tô indo...".
Suor. Sinal vermelho.
Ninguém espera.
Longa avenida.

terça-feira, junho 17, 2008

Sistema Límbico das Cidades

Por Thiago Berzoini
Cansado de tanto aborrecimento, partiu. Em oito meses voltou. Não encontrou lá coisa fantástica, era a mesma bagaça com nova carcaça. Chega de ar puro e tom monótono das tardes de sábado. Com sol era até agradável mas em dia de chuva, lamentável. Feio e triste, como todo sábado choroso. Cidade grande chora raivosa. As pequenas dão pena, sente-se melancolia das ruas de pedra. As grandes metrópoles choram com rancor, são violentas em tudo, até nas emoções. Agridem até mesmo sem perceber que ferem os transeuntes. Eram, então, um só, grandes pedaços de concreto, sem muita ligação com os (s)eus. Nas pequerruchas cidades, o choro dói. Nubla o céu e vem sempre uma tristeza, e não tem ira naquela mágoa, é apenas assim: cristalina. Parecem ser um com os (s)eus. Não se adaptou a tamanha intimidade, incomodava a sujeira do pequeno, lamaçal que se fazia um atolar de pés. Gostava mesmo é do vento nos prédios, marquises, assovios por entre janelas de alumínio. As placas luminosas gangorreando às lágrimas, e o mais adorável: molhava asfalto, negror ímpar nas ruas vazias e enfim, limpas... Entre pedras e asfalto, assistia poesia nas pedras; no asfalto as vistas se ralavam aflitas.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Tardes.

Por Thiago Berzoini

Calou-se, estupefato. Tomou sem glamour a xícara de café, enquanto a tarde cinzenta esfriava as faces. Olhava, perdido, mareando o globo.
Chorava, a cidade, uma chuva fina.
Um coração medíocre, mais morno que ontem, que nem o café esquentava, batia vulgarmente.
Tum.Tum.Tum.Tum. Batida seca, não parecia véspera de carnaval.
Alheias faces, sorrisos mantidos, dentes brancos ao redor e além.
A fumaça de um cigarro, cortina tímida mesa à frente.
Um conhecido a passos largos. Nem vê...quase. Sorriso forçado de lá e cá, finda em segundos.
São lábios sérios molhados em cafeína.
Burburinho contínuo, famílias, amigos, amores, crianças, jovens, idosos.
Ele.
(pensava:)
Em algum lugar: ela - que nem visitava mais.
Os dias.
Dias sim, dias não, a chuva costumeira.
A mesma mesa, o mesmo olhar: perdido.
O samba (no copo descartável).
O café, o desgosto e a mesma batida seca.
Nem parecia carnaval.

domingo, dezembro 02, 2007

Temps et connaissance

Por Thiago Berzoini

I.
Olhos cansados.
Un révolutionnaire
entre os dedos,
Livros velhos,
alfarrábios.

II.
Os grãos unidos
jogando-se ao deserto
irmão.



III.
"la belleza
em virginales páginas"
O Canônizado diz.
Voz da consciência.


IV.
Caem as ramas
do tempo,
nada para.

V.
Sabujice é falsa (não).
Indecifrável efeméride
fêmea: falácia.

VI.
Paira o pendular
ruído constante
coração-maquinal.

VII.
Entre os olhos:
Un sage,
entrelinhas
dedos folheiam
nas pontas-unhas.

VIII.
A perplexidade.
Nada apara
as ramadas
dos grãos
suicidas.