Terça-feira, Janeiro 26, 2010

26-01-2010

A noite reinando
fria em silêncio.
O grito preso na garganta,
um olhar cansado,
sob as velhas-mesmas páginas
de um autor irlandês,
enquanto a meia luz da sala
embala,
a tosse seca
ecoando,
os cômodos
[vazios]
cheios de dor.

Sexta-feira, Agosto 29, 2008

In Technicolor

Por Thiago Berzoini

E que nenhum destino possível parece agora em technicolor com som estéreo; não há na grande sala escura um espectador aflito ansiando uma canção orquestral majestosa. Todos possíveis destinos parecem, agora, fantasmais. Pois nenhuma linha demonstra-se passível de desvio. Força vã: o fio do destino se mostra irretocável, irrevogável, inquestionável. Num dia de céu cinza e dublado, os olhos ainda meio grudados, o despertador com seu toque irritante. Corpo impulsionado a sair do conforto, cessar o barulho intermitente. É hora, então, de levantar. E no meio da tarde, já serás um eu de lembrança sofrida, doído - alma aos músculos -, palavras acústicas abafadas, um leve sabor de coentro. Dessa forma, alguns menos, outros mais, passam seus dias entre terras e um cais, num vaguear insosso, num alagar de olhos. O pior lugar é o não-aqui; de estar lá, só, em pensar: Não existir.

Terça-feira, Julho 29, 2008

O Sorriso de Nat King Cole na Avenida

Por Thiago Berzoini
Naquele ponto de ônibus, a noite vislumbrava, ainda, continuidade.
Alinhado, parou incomodado. Pessoas se esfregando, o esbarrão ocasional dos corpos se aproveitando da ocasião, o suor misturado com o perfume da sexualidade desglamourizada do fim de tarde, na parte baixa da cidade.
Ele, incomodado.
Gente feia. Perfume barato.
Olhar angustiado.
Sem porquê.
Duas pérolas de pureza, peles negras, arrancam breve sorriso do homem de olhar cansado.
Preocupado sorri pouco.
A vida anda promissoramente tacanha, móe a fé.
Aquelas crianças, de roupas puídas -ele com um casaquinho azul-pelúcia encardido, ela com duas chiquinhas mal feitas, cabelos crespados mal cuidados, jaqueta rosa rasgada na manga - ainda não viram o esmaecer do farol (mesmo que já apagado) - (des) saber triunfal da infância.
Em meio à tanto vazio, mesquinharia brinde do cotidiano, sorriam felizes,elas, entre si. Encostavam lábios pequenos e alegres em suas sujas palmas das mãos, respectivas, e sopravam olhando, admiradas, para cima: outdoor reinando sob suas alturas infímas.
Sorrisos breves. Gargalhadas embaladas pelo cheiro do churrasquinho da esquina.
Eram beijos enviados com um sopro leve, infante, para Nat King Cole. Ele, numa foto antiga e pouco tratada, gigantesco até para os crescidos.
Anúncio de um musical sobre sua vida, no teatro mais nobre da cidade - informação essa que aquelas crianças encantadas desconheciam.
Perguntava-se - observando a cena, quase chegou a marear os olhos secos - se Nat Kin Cole os lembrava o pai, tio ou avô. Certamente, não conheciam o músico, mas era de alguma forma, carismático o suficiente para merecer o curioso carinho despertado nos, deduzia ele, irmãos. Arrepiou-se ao ver a cena. Perdeu-se (quase) do incomodo da lotação (estúpida) do fim da tarde naquele ponto de ônibus.
No meio daqueles, era só um. Gostava disso, em parte, embora nunca admitisse.
Sua condução tardia estacionando (enfim).
Olhou Nat King Cole no seu outdoor: solitário, sorriso (triste) - (triste) talvez da felicidade do sucesso. Sabia que a "fama" era um gozo doído, cria, naquele sorriso Cole também sentia-se assim. Cismava com o sorriso de Cole. Sincero, ainda assim, forçado. Talvez o foco fossem os olhos mas poesia mesmo era sorriso, decidiu que era assim, e foi. Já vira a foto, no Outdoor percebia-se mais triste.
Antes de subir no ônibus, de chofre olhou pros pequeninos.
Sentados, a mãe até então figurante imperceptível na cena, agora abaixada abrindo um pacote de biscoitos recheados. Na mão da menina, meio biscoito com recheio ao ar livre.
Tumulto, roleta.
Bancos ocupados. Claustrofobia.
Silêncio.
Celular, - (distante) monofônico Mozart-, "Alô, tô indo...".
Suor. Sinal vermelho.
Ninguém espera.
Longa avenida.

Terça-feira, Junho 17, 2008

Sistema Límbico das Cidades

Por Thiago Berzoini
Cansado de tanto aborrecimento, partiu. Em oito meses voltou. Não encontrou lá coisa fantástica, era a mesma bagaça com nova carcaça. Chega de ar puro e tom monótono das tardes de sábado. Com sol era até agradável mas em dia de chuva, lamentável. Feio e triste, como todo sábado choroso. Cidade grande chora raivosa. As pequenas dão pena, sente-se melancolia das ruas de pedra. As grandes metrópoles choram com rancor, são violentas em tudo, até nas emoções. Agridem até mesmo sem perceber que ferem os transeuntes. Eram, então, um só, grandes pedaços de concreto, sem muita ligação com os (s)eus. Nas pequerruchas cidades, o choro dói. Nubla o céu e vem sempre uma tristeza, e não tem ira naquela mágoa, é apenas assim: cristalina. Parecem ser um com os (s)eus. Não se adaptou a tamanha intimidade, incomodava a sujeira do pequeno, lamaçal que se fazia um atolar de pés. Gostava mesmo é do vento nos prédios, marquises, assovios por entre janelas de alumínio. As placas luminosas gangorreando às lágrimas, e o mais adorável: molhava asfalto, negror ímpar nas ruas vazias e enfim, limpas... Entre pedras e asfalto, assistia poesia nas pedras; no asfalto as vistas se ralavam aflitas.

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

Tardes.

Por Thiago Berzoini

Calou-se, estupefato. Tomou sem glamour a xícara de café, enquanto a tarde cinzenta esfriava as faces. Olhava, perdido, mareando o globo.
Chorava, a cidade, uma chuva fina.
Um coração medíocre, mais morno que ontem, que nem o café esquentava, batia vulgarmente.
Tum.Tum.Tum.Tum. Batida seca, não parecia véspera de carnaval.
Alheias faces, sorrisos mantidos, dentes brancos ao redor e além.
A fumaça de um cigarro, cortina tímida mesa à frente.
Um conhecido a passos largos. Nem vê...quase. Sorriso forçado de lá e cá, finda em segundos.
São lábios sérios molhados em cafeína.
Burburinho contínuo, famílias, amigos, amores, crianças, jovens, idosos.
Ele.
(pensava:)
Em algum lugar: ela - que nem visitava mais.
Os dias.
Dias sim, dias não, a chuva costumeira.
A mesma mesa, o mesmo olhar: perdido.
O samba (no copo descartável).
O café, o desgosto e a mesma batida seca.
Nem parecia carnaval.

Domingo, Dezembro 02, 2007

Temps et connaissance

Por Thiago Berzoini

I.
Olhos cansados.
Un révolutionnaire
entre os dedos,
Livros velhos,
alfarrábios.

II.
Os grãos unidos
jogando-se ao deserto
irmão.



III.
"la belleza
em virginales páginas"
O Canônizado diz.
Voz da consciência.


IV.
Caem as ramas
do tempo,
nada para.

V.
Sabujice é falsa (não).
Indecifrável efeméride
fêmea: falácia.

VI.
Paira o pendular
ruído constante
coração-maquinal.

VII.
Entre os olhos:
Un sage,
entrelinhas
dedos folheiam
nas pontas-unhas.

VIII.
A perplexidade.
Nada apara
as ramadas
dos grãos
suicidas.






Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Pé D’água

Por Thiago Berzoini

O tilintar feroz lavando asfalto, as donas-de-casa com seus filhos, apressadas, desejosas por marquises onde possam proteger seus filhos, as donas-de-casa mais prevenidas puxando pelos braços os filhos chorosos pelo clima frio, debaixo de sombrinhas, algumas coloridas outras sóbrias, ansiosas também pelas marquises breves que a cidade oferece, o asfalto sendo lavado pelo tilintar feroz da chuva, nos carros o vidro é lavado, naturalmente, e passam correndo, motoristas que querem o conforto de suas casa, alguns desejam a pele nua da esposa, aquele ali só quer ver a tevê quando chegar e ele aperta o pé, passam apressados, a água, das poças próximas a calçada são jorradas aos transeuntes, a médica de branco molhada com a água suja do asfalto, motorista filho-da-puta, pensa, mais a frente o ponto de ônibus lotado, todos apertados, espremem-se fugindo dos respingos passa o ônibus jorra água do asfalto, sem mãe!, grita o senhor de meia idade tomar no cu, carai!, o boyzinho-do-cordão-de-prata-no-pescoço - que-correu-ali-para-se-esconder-da-chuva grita, sem educação, mas estuda no jesuítas... o caderno cai em meio a movimentação, a madame de salto alto pisa, desculpa, eu não vi!; Oquei..., diz; Porra..., pensa; ele catando do chão o caderno, não tem educação, mas estuda no jesuítas, limpa com nojo o caderno e olha para a praça, um cachorro ensopado arfa parado no meio entre as árvores enquanto água faz brilhar o pelo pardo-amarelado sujo e crispado. O movimento diminui, os carros passam, a hora passa, os ônibus passam, o cachorro deita embaixo de um banco da praça, a chuva diminui, seus pingos estão tímidos. Vai parar...cai mais chuva, Pô, que porra! ele resmunga... Meu pai podia me buscar, vou de táxi, buceta...ele pensa. Não tem educação, mas estuda no jesuítas... ficam todos em um ponto de ônibus, aglomerados, a observar a parede de água caindo dos céus, do executivo do Victory Hotel à servente da creche que tem um caso com um pivete do Dom Bosco, todos unidos no ponto, roçam o terno Armani com a blusa puída exalando suor, o cachorro pulguento esfrega-se na perna nua da menina passando brilho labial, Ai, sai daqui nojento! diz com uma voz insuportavelmente fanha, enquanto seus seus loiros pêlos de súbito eriçam ao cachorro lhe encostar. Ocultos do tilintar da chuva que insiste em molhar ainda assim...(e não... )
Nenhum deles era de açúcar.